Iniciativa carioca capacita mais de 200 talentos do funk, mas enfrenta dificuldades financeiras para seguir em frente

No contexto cultural do Rio de Janeiro, o funk se destaca como um dos movimentos mais emblemáticos, ao lado do samba. Com suas batidas marcantes, que variam entre o acelerado ritmo de 150 BPM e o charme do funk melody, esse gênero é parte integrante da vida cotidiana carioca. Para assegurar a continuidade dessa cultura vibrante, é essencial apoiar os protagonistas desse cenário e abrir portas para novos talentos. É exatamente essa missão que o projeto #estudeofunk tem realizado há quatro anos.

Iniciado em 2022 por meio da parceria entre a Fundição Progresso e a Viva Brasil, o programa foi concebido como uma plataforma destinada à formação e avanço na carreira de artistas do funk carioca. Desde sua criação, mais de 200 artistas, incluindo MCs, DJs, beatmakers e dançarinos, participaram da iniciativa. Segundo Taísa Machado, diretora artística do projeto, um dos aspectos mais significativos desse trabalho reside nas experiências inéditas que ele proporciona aos participantes.

— Trabalhar na realização dos sonhos de jovens artistas é desafiador. Falo em “estrada” porque o percurso para os artistas oriundos da periferia é longo. Apesar da diversidade presente, muitos deles chegam aqui para vivenciar uma série de “primeiras vezes”. Seja na gravação em estúdios profissionais ou na experiência de se apresentar no palco pela primeira vez — detalha Taísa.

A maioria dos participantes do projeto se identifica como negra: 85% são pessoas negras e 2% se declararam indígenas. O grupo também reflete diversidade em relação à orientação sexual, identidade de gênero e inclusão de pessoas com deficiência. Esses dados não são meras estatísticas; eles ilustram uma rica tapeçaria cultural que emerge de diferentes realidades sociais e encontra no funk um meio expressivo, além de ser uma potencial via profissional para muitos.

Mudança de vida

Marcos Carvalho, aos 26 anos e atuando como drag queen sob o nome Preta Queenb Rull, é um dos beneficiados pelo #estudeofunk. Nascido na comunidade da Maré, ele acumula oito anos de atuação como ator, cantor e compositor, com oito produções teatrais e nove lançamentos musicais (quatro deles autorais). Sua trajetória inclui também uma viagem internacional para eventos relacionados a shows da Beyoncé:

— Apresentei diversas performances no Estude o Funk e tive acesso a estruturas que artistas independentes ou oriundos de favelas raramente conseguem experimentar. A infraestrutura oferecida foi essencial para minha criação, formação e apresentações. Essa vivência foi incrível; diria que foi uma das melhores experiências da minha vida.

Além de sua atuação como artista visual, Marcos realiza shows anuais para crianças em sua comunidade. Seu trabalho combina elementos do funk com teatro e cultura ballroom; uma das suas características marcantes é sua presença cênica e voz potente — habilidades que aprimorou durante sua participação no #eof.

— Tive aulas sobre preparação vocal e orientações para melhorar minha projeção vocal. Também participei de palestras sobre a história do funk com Taísa Machado. Esses momentos me emocionaram profundamente e me motivaram a seguir em frente na minha carreira — ressalta Marcos, que tem músicas como “Acredite no seu axé” e “Bateu” disponíveis nas plataformas digitais.

Em busca de apoio

Durante seus ciclos operacionais, o projeto lançou cinco álbuns completos, dois EPs e diversos singles e videoclipes que somam aproximadamente 500 mil visualizações no YouTube. As produções alcançaram palcos renomados, festivais variados e plataformas digitais. Contudo, atualmente o projeto enfrenta dificuldades financeiras para dar início a um quinto ciclo que possibilitaria cerca de 50 novas participações gratuitas com todos os benefícios oferecidos.

— É intrigante pensar que um projeto dessa magnitude precisa buscar apoio financeiro. O funk tem ganhado reconhecimento global; dados das principais plataformas de streaming indicam que é o gênero musical brasileiro com maior crescimento internacionalmente, sendo o Rio de Janeiro seu berço cultural — observa Taísa Machado ao questionar:

— O que as pessoas fora do Brasil conseguem perceber no funk que nós não conseguimos?

Para viabilizar seu próximo ciclo, o #estudeofunk lançou uma campanha visando apadrinhamento por parte de empresas e indivíduos dispostos a contribuir financeiramente para sua continuidade. A intenção é proporcionar a novos MCs, DJs, beatmakers e dançarinos a oportunidade de vivenciar suas próprias “primeiras vezes”, além de oferecer uma rede solidária capaz de acompanhar cada artista na construção de suas carreiras.

— Preocupa-me saber que outros artistas podem não ter as mesmas oportunidades que eu tive; especialmente jovens talentos que poderiam descobrir seu potencial através deste projeto. O funk é parte integral da cultura brasileira e merece reconhecimento e apoio — reflete Marcos Carvalho.

BS20261011090001.1 – https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/10/projeto-no-rio-forma-mais-de-200-artistas-do-funk-mas-busca-patrocinio-para-continuar.ghtml