À vista ou em parcelas? Descubra como fazer a escolha ideal ao utilizar seu cartão de crédito.

O cartão de crédito se tornou um elemento cotidiano nas finanças de muitos brasileiros. Uma pesquisa realizada pela Serasa revelou que 60% da população utilizou essa forma de pagamento nos últimos doze meses. A principal razão para isso, mencionada por 41% dos participantes, é a possibilidade de parcelar compras conforme o orçamento disponível. No entanto, a escolha entre o que parcelar e o que pagar à vista requer cuidado e planejamento para evitar que a fatura do cartão se torne uma “bola de neve”, prejudicando as finanças pessoais.

O levantamento também destacou que 30% dos entrevistados utilizam o cartão para despesas diárias, enquanto 29% optam por ele em compras específicas e 18% para emergências relacionadas à saúde. Caio Camargo, coordenador de crédito da Serasa e especialista em educação financeira, afirma que muitos veem o cartão como uma extensão da renda mensal. O problema surge quando as pessoas começam a depender do crédito para suprir uma renda que já não é suficiente para cobrir todas as despesas e quitar a fatura integralmente:

— Os juros podem transformar uma solução temporária em uma dívida prolongada. Portanto, é fundamental que os consumidores entendam qual parte do seu orçamento está sendo consumida pelo cartão e planejem adequadamente o pagamento da fatura.

José Trigo, economista e professor no mestrado em Administração da Estácio, ressalta que a decisão entre parcelar ou pagar à vista deve levar em conta tanto os custos do parcelamento quanto a situação financeira do consumidor:

— Se for possível quitar a compra à vista sem comprometer o orçamento e ainda houver desconto, essa geralmente é a melhor escolha. Por outro lado, parcelar pode ser vantajoso quando permite encaixar a compra no orçamento sem causar dificuldades financeiras durante o mês.

Trigo analisou quais tipos de despesas são mais adequadas para parcelamento ou pagamento à vista (veja abaixo). Contudo, essa abordagem não deve ser rigidamente aplicada, pois cada situação é única. Em geral, quanto mais rapidamente um produto é consumido, menos recomendável é optar pelo parcelamento. Ele também sugere evitar acumular várias prestações:

— O ideal é garantir que as parcelas caibam confortavelmente no orçamento e que o consumidor evite acumular diversas compras parceladas simultaneamente. O principal risco é perder o controle sobre os compromissos futuros e acabar utilizando o crédito rotativo, cuja taxa de juros é bastante elevada.

Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira (Abefin) e da DSOP Educação Financeira, alerta que um uso desorganizado do cartão pode convertê-lo em um “grande vilão”. Ao considerar parcelar uma compra, ele enfatiza a importância de ter certeza sobre a capacidade de honrar todas as prestações futuras:

— Se alguém decidir parcelar em dez vezes, precisa ter segurança de que conseguirá pagar essas parcelas nos próximos dez meses junto com o restante da fatura. É prudente evitar o parcelamento caso não haja certeza sobre a capacidade de quitar os valores na data correta.

Domingos também destaca que o cartão pode ser um aliado do consumidor quando há consciência sobre as condições de pagamento.

— Tempo é dinheiro, especialmente no contexto financeiro. Às vezes tenho dinheiro aplicado na conta; nesse caso, posso optar pelo parcelamento enquanto meu capital continua rendendo — esclarece.

‘Tento parcelar sempre para ter poder de compra’

Leia o depoimento da agente comunitária de saúde Amanda Barbosa, 27 anos:

“Minha relação com o cartão de crédito já existe há muito tempo. Não uso ele para comprar alimentos ou itens básicos, exceto em situações emergenciais. Normalmente adquiro produtos para casa, roupas ou itens maiores como uma TV que realmente preciso parcelar porque não consigo quitar à vista. Sempre busco parcelar para manter meu poder aquisitivo sem ficar apertada financeiramente no mês. Faço um controle rigoroso dos meus gastos. Até criei um grupo no WhatsApp só para anotar minhas prestações e ter uma visão clara do que posso gastar sem comprometer minha renda mensal desnecessariamente.”

Perder noção dos gastos é o maior risco

Trigo enfatiza que entre os cuidados essenciais ao utilizar cartões de crédito estão acompanhar os gastos regularmente, evitar comprometimentos excessivos da renda com prestações e garantir o pagamento total da fatura dentro do prazo estabelecido. Segundo ele, o principal perigo reside na “perda da percepção do quanto está sendo gasto”.

— Como os pagamentos ocorrem apenas na data do fechamento da fatura, muitas pessoas acabam realizando várias compras pequenas cujos valores somados se tornam difíceis de serem quitados no final do mês.

O especialista ainda alerta sobre os elevados juros aplicados ao crédito rotativo, que incidem quando não se paga integralmente a fatura do cartão e o saldo restante acaba sendo financiado. De acordo com dados do Banco Central, a taxa média dessa modalidade alcançou impressionantes 444,9% ao ano em agosto.

— O crédito rotativo deve ser encarado como uma opção emergencial e para prazos muito curtos — recomenda.

Para aqueles que enfrentaram dificuldades com suas contas no cartão de crédito, Camargo sugere avaliar cuidadosamente a magnitude da dívida e seu impacto no orçamento pessoal.

— É fundamental buscar alternativas mais econômicas (de crédito), comparar custos totais e evitar novas aquisições que não poderão ser pagas integralmente; essa estratégia interrompe ciclos viciosos de endividamento — conclui o especialista.