A trajetória de Tuca: o artista que brilhou ao lado de Chico Buarque e deixou um legado em meio à sua partida prematura, agora em livro.

Quantas pessoas lembram de Valeniza Zagni da Silva, nascida em São Paulo em 1944 e falecida em 1978? O seu nome artístico, Tuca, pode ser familiar para aqueles que assistiam à televisão no final dos anos 60. Em um festival de canções, a artista se destacou ao interpretar a marcha-rancho “Porta estandarte”, composta por Geraldo Vandré e Fernando Lona. Posteriormente, ela teve um programa na TV Tupi, “Um homem, uma mulher”, ao lado do produtor Luís Carlos Miele. Contudo, o livro “Tuca: a cantora lésbica exilada da história” (Ed. O Sexo da Palavra, R$ 52), escrito pelo professor e pesquisador Renato Gonçalves, revela uma artista muito mais complexa. Este é o primeiro volume da coleção Vidas Sequestradas e será lançado no final deste mês na Casa Queer durante a Feira Literária de Paraty (Flip).

Tuca foi uma talentosa cantora, compositora e multi-instrumentista, com grande habilidade no violão, seu principal instrumento. Ela iniciou sua carreira ainda jovem em São Paulo, compartilhando o palco com ícones como Chico Buarque, Toquinho e Taiguara. Além de seu talento musical, Tuca se destacava por sua inteligência, carisma e irreverência; era fluente em várias línguas e adorava usar túnicas coloridas. Em 1968, lançou um LP aclamado pela crítica pela gravadora Philips e recebeu um convite do Itamaraty para se apresentar na Semana de Arte Brasileira em Angola, ao lado de Gilberto Gil e do Jongo Trio.

Com a repressão do regime militar brasileiro aumentando sobre as artes, muitos artistas buscaram refúgio no exterior. Tuca não foi exceção e se autoexilou na França. Durante esse período, ela contribuiu arranjos musicais e tocou violão no álbum “Dez anos depois” (1971), onde Nara Leão reinterpretou clássicos da bossa nova de forma íntima.

Ainda em 1971, enquanto estava em Paris, Tuca tornou-se colaboradora e diretora artística da renomada cantora francesa Françoise Hardy no ousado disco “La question”. Com um foco crescente na música pop de vanguarda e já confortável com sua sexualidade, ela seguiu para o Château d’Hérouville com Mário de Castro. Este estúdio histórico também foi frequentado por artistas como Cat Stevens, Elton John, Pink Floyd e David Bowie — com quem Tuca supostamente trocou ideias criativas. Foi nesse local que eles gravaram “Dracula, I love you”, um álbum que utilizava a metáfora do vampirismo para explorar o homoerotismo feminino.

Renato Gonçalves já havia contribuído para a série O Livro do Disco da Editora Cobogó com um estudo sobre “Fullgás”, álbum de Marina Lima lançado em 1984. Ao realizar sua pesquisa para a tese de mestrado em 2014 sobre os compositores irmãos Marina e Antonio Cicero, ele percebeu uma lacuna nas obras que abordassem as questões LGBT na música brasileira. Essa busca o levou ao nome de Tuca — que estava praticamente esquecida nas memórias da MPB.

“Comecei a conversar com pessoas que viveram os anos 70, incluindo outros artistas. A primeira coisa que me diziam era: ‘Ah, aquela que era gorda?’ Isso me fez perceber algo importante”, relata Renato. “No seu tempo, isso prejudicou o reconhecimento dela como uma grande musicista. Tuca era uma artista completa em composição e interpretação; tocava violão superbem e dominava vários instrumentos e gêneros musicais com um carisma impressionante… Ela cativava todos ao seu redor. Além disso tudo, havia o fato dela ser mulher. Hoje entendemos melhor como as mulheres musicistas foram apagadas da história.”

Na gravação de Nara Leão à qual Tuca participou, ela foi mencionada apenas como uma “participação especial”. As referências ao trabalho dela no disco “La question” são limitadas a críticas escritas em francês e inglês. O único LP dela disponível nas plataformas digitais é “Tuca”, lançado em 1968. A atenção maior dada à sua biografia gira em torno de sua morte precoce aos 33 anos em São Paulo — supostamente resultante de um regime drástico para emagrecimento incentivado por um guru espiritual (um dos mistérios sobre Tuca que está sendo explorado pela produtora Rádio Novelo para uma série sobre sua vida).

“Os rótulos ajudam a categorizar os artistas: ‘Ah, ela é compositora? Ah, ela é cantora?’ Mas Tuca não se encaixa nessas categorias tradicionais. Para além disso tudo, ela também era humorista”, acrescenta Renato Gonçalves. Sua pesquisa foi apoiada por uma comunidade online de admiradores da artista formada na última década. “Outro fator é que sua carreira foi bastante curta; apenas três discos foram lançados além das colaborações com Nara Leão e Françoise Hardy — três álbuns notáveis. E depois da morte dela surge uma questão crucial: quem cuida do acervo? Toda obra criada por pessoas LGBT que não tiveram filhos fica sem gestão legal adequada; atualmente não há ninguém responsável pela obra da Tuca.”

‘Olha só a maluquice’

O disco “Dracula, I love you”, lançado pela Som Livre em 1974 — então braço musical da TV Globo — não conquistou espaço nas trilhas sonoras das novelas (diferentemente da faixa-título do álbum francês “La question”, que virou tema numa novela). Como resultado, esse LP tornou-se uma raridade adorada apenas por colecionadores sortudos.

“Tuca financiou esse disco com recursos próprios e trabalhou com músicos incríveis. Ela trouxe a fita para o Brasil pessoalmente e tentou convencer várias gravadoras a lançá-lo. Olha só que maluquice!”, desabafa Renato Gonçalves indignado. “Esse álbum é uma verdadeira obra-prima; porém não recebeu o reconhecimento merecido entre seus contemporâneos naquele período histórico.” Ele também menciona os obstáculos impostos pela censura à divulgação desse trabalho: mesmo tendo sido liberado oficialmente após análise prévia das letras pela censura estatal — onde Tuca precisou usar estratégias retóricas baseadas no surrealismo para contornar possíveis associações homossexuais — o impacto negativo perdurou.